Refletindo…

Sonhar ou fazer jornada xamânica – oportunidade de reencontrar a força vital e os amigos de alma.

TheLandOfSleep

Há muito tempo, estudiosos nos chamam a atenção para a importância dos nossos sonhos. Dizem que são ferramentas da psique que buscam equilíbrio por meio da compensação ou ainda, a realização de um desejo.

A importância dos sonhos possui também outros aspectos quando ouvimos a história dos nossos povos originários das Américas. Para alguns desses povos, os sonhos são “desejos secretos de nossa alma”, muito importantes para nos orientar no dia-a-dia e em grandes decisões. O problema é que não mais damos importância a eles.

 

Com a expansão do Xamanismo nas cidades temos a oportunidade de encontrar mais e mais pessoas que costumam fazer jornadas xamânicas que são muito semelhantes a um sonho desperto. Estes grupos ajudam os participantes a entrarem em contato com seus “sonhos”, alterando seus estados de consciência a um nível conhecido como “teta” onde nos encontramos no limiar entre totalmente despertos e adormecidos. Seja qual for a linha de pensamento tomada para abordar este tema, chamo atenção a algo muito especial que acontece nestes encontros. As pessoas começam a se sentir reconhecidas e também a reconhecerem como “amigos de almas” outras pessoas que foram atraídas a estes grupos. É disso que quero falar neste texto.

 

Minha primeira jornada xamânica fiz há 20 anos atrás. Alguém tocou o tambor e eu passei pelo que chamam “expansão de consciência”. Eu tinha uma intenção, algo que aprendi ser indispensável para o entendimento posterior às imagens ou sensações sentidas durante a jornada xamânica. Meu objetivo ali era observar interiormente um cisto no meu ovário esquerdo e o que vi foi um asiático sentado em posição de lotus que saía daquela posição e começava a dar golpes de caratê. Embora as imagens me parecessem fortes e atraentes, não entendi nada, porém as consequências que se seguiram à esta minha primeira jornada me conduziram a veredas jamais imaginadas por mim. Continuei explorando tais imagens em outras jornadas e elas começaram a modificar meus sonhos.

 

Desde pequena tive sonhos premonitórios, mas aprendi a não falar deles para não causar desconforto às pessoas envolvidas. Com o tempo estes sonhos se tornaram pesadelos até que consegui eliminá-los de minha vida. Sem sonhos eu adoeci, muito embora me disessem que eu continuava sonhando e que apenas não lembrava mais do que sonhara.

 

As jornadas me trouxeram de volta a meus sonhos, com mais vivacidade e entendimento. Passei a observá-los e a sair de situações que me apavoravam. Fui definindo meus sonhos com a possibilidade de torná-los aliados no meu autoconhecimento e quando não conseguia entendê-los fazia uma jornada com o tambor dando continuidade a eles. Aquele asiático que apareceu na minha primeira jornada xamânica se tornou meu primeiro mestre interior, o “mestre do mundo superior”, como se costuma dizer no linguajar xamânico. Depois vieram a águia e a cobra que anos depois se transformaram em dragão, configurando-se em meus animais de poder.

 

Animais de poder ou mestres interiores são forças internas pouco usadas por nós. Elas surgem em imagens fortes e poderosas para nos lembrar que nossa alma é forte e poderosa. Traumas e histórias difíceis de vida nos afastam dessa força e poder interior. O poder existe quando estamos ligados à Fonte, aquela da qual viemos. Estas sensações ou imagens vêm nos religar a esta força infinitamente poderosa. Como somos bombardeados pelas dificuldades do dia-a-dia, vamos nos esquecendo dos pedaços de nossa alma que estão sendo resgatados durante os sonhos ou durante estas jornadas xamânicas.

 

Esta é a importância dos grupos que se reunem em torno de uma busca pelo sonho desperto, ou jornada xamânica. Apoiados por nossos amigos de alma vamos trocando experiências e soluções, compartilhando dúvidas e desesperanças, avançando em direção à lembrança do que verdadeiramente viemos fazer aqui nesta Terra. Juntos, desatamos os nós onde nossas esperanças ficam enfraquecidas e nossa alma triste, sem forças. Estes grupos reacendem esperanças, promovem mudanças profundamente verdadeiras. São luzes que se acendem nos momentos de dúvidas e desespero.

 

Quanto mais discutimos as jornadas ou sonhos, mais despertamos o xamã que carregamos dentro de nós. O xamã é aquele que vê mais longe, que fala com os espíritos, que vai ao mundo dos mortos e de lá traz os desejos interrompidos, os sonhos tolidos, a alegria de viver que ficou paralisada num determinado momento de nossa vida. O xamã devolve a força vital diluída em poeira, integrando tudo isso à nossa vida. Vida, na forma de força de viver, de reconexão com o nosso verdadeiro Eu superior, com a alegria e a conexão.

 

Numa tradição norte americana chamada Ojibway, os nativos acreditam que a raiva e o rancor encontram-se em guerra, produzindo desarmonia e gerando sonhos ruins. Para estes indígenas os sonhos são como entidades, boas ou más, que vivem soltas no ar e que durante a noite podem ser capturados por nós, os sonhadores. Uma história sobre os filtros de sonhos, objeto sagrado atualmente conhecidos nas cidades, fala da teia de aranha que nos ensina sobre a teia da vida onde tudo está interligado, da necessidade de dar atenção aos detalhes dos sonhos para tentar “ver” o que necessita ser resgatado. Os sonhos ruins são nossos problemas, aparentemente sem solução. Porém, ruim para os nativos, não é o que nos assusta, mas o que não enxergamos, aquilo que se encontra escondido. Então, as mulheres ao tecerem estes filtros de sonho estão tentando nos ajudar a tecer as idéias, a direção, a força, a sabedoria, a visão que nos foi negada pela falta de educação sobre a importância dos sonhos.

 

A cada noite, ou a cada jornada xamânica, segundo os povos originários, nos é dada a oportunidade de refazer nossa vida. Quando acordamos, bastaria que agíssemos, porém optamos por continuar “dormindo”, como se fosse mais real viver com os olhos da alma vendados.

Nós temos nos dado o direito de sonhar despertos ou acordados? Temos dado ouvidos aos nossos atos falhos? Temos seguido nossa intuição? E quando estamos perdidos buscamos ajuda para que nos ajudem a refletir sobre nossos sonhos? Temos buscado encontrar os amigos de alma?

 

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Entrei no Planalto da Morte e ali Fossilizei

As cerimônias espirituais simbolizam uma das três etapas dos ritos de passagem. Ela ocorre quando há uma energia a ser transmutada, é uma cerimônia de passagem, que objetiva a transformação desta energia.

Dependendo da gravidade do fato espiritual, mais de uma cerimônia será necessária.

É importante que o líder da cerimônia tenha claro o objetivo da mesma, que tenha noção e sensibilidade desenvolvida para sentir as nuances de energia, além do conhecimento de ritos tradicionais e por último, mas não menos importante, que sinta quando deve finalizar o rito.

A orientação espiritual para a realização da cerimônia é algo muito maior que a esfera pessoal ou humana, neste caso é melhor conceber um rito com mais de uma pessoa, preparar a harmonia pessoal e do grupo e se possível, desapegar-se dos resultados. A harmonia entre as pessoas formará um escudo de proteção sobre aqueles que participam deste rito.

Este relato se refere a um rito que me foi pedido pelo plano espiritual. Tinha claro que não conseguiria compreender o porquê, nem as consequências desta cerimônia. Mesmo assim, senti fortemente que deveria fazê-lo. Estava intimamente ligada às jornadas e experiências que vivera na França e Áustria durante as três semanas anteriores a este pedido espiritual.

No dia 13 de novembro, ouvi ao acordar, uma voz me dizendo que os europeus haviam esquecido a cor da morte e que eu deveria levar esta cor faltante ao ponto geográfico mais alto da Bélgica, mesmo não sabendo muito bem o significado deste pedido.

Sigo a tradição Ojibway, nativos norte-americanos, e as suas cores da Roda da Medicina. A cor da morte é a preta, pois é pelo oeste que saímos quando vamos para o mundo espiritual na hora de nossa morte física.

Pensei em pesquisar para  conhecer melhor as cores europeias que significariam a morte e acabei encontrando o vermelho, o preto e o branco.

Sem saber o que fazer, decidi colocar as quatro cores Ojibway: o amarelo (leste) que representa o início da vida, o sol da manhã, a criança; o vermelho (sul) que representa o desenvolvimento da vida, o sol do meio dia, o jovem; o preto (oeste) que representa a vida adulta e o por do sol, mas também a porta por onde saímos para o mundo espiritual; o branco (norte), que representa a velhice, a lua da meio da noite e o renascimento.

O que me foi esclarecido pelos meus guias espirituais é que na morte física de um humano, a alma parte para o mundo espiritual, mas se por alguma razão a parte material de seus corpos não tem consciência dessa liberação do corpo físico (caso de morte violenta, perturbação no terreno sagrado onde estão enterrados os corpos ou por outros motivos) o espectro desta matéria precisa ser liberto do apego à esfera terrestre. Algumas pessoas optam por rezar pelas almas perdidas, outros em encaminhá-las para a Luz Maior. Minha simples missão era resgatar a representação simbólica da cor da morte e colocá-la no solo belga e nos rezos imprimir a intenção de harmonia ao local indicado.

Nos primórdios, os humanos honravam o local onde corpos eram enterrados como locais sagrados. Hoje, se a cultura local não mais se preocupa em fazer cerimônias para a liberação destas energias aprisionadas, pode acontecer um acúmulo de energia extremamente pesada.

Os videntes ou sensitivos podem ser contatados por forças superiores, para que uma presença material possa transformar esta energia espectral. Por isso, o pedido da cor, algo físico, para marcar o que faltava para que a harmonia no local fosse restabelecida.

Pode ser que as pessoas envolvidas no rito já estejam participando de um ritual também a nível espiritual em outro plano e por isso são colocadas juntas. Normalmente são pessoas de almas afins. Aparentemente pode não haver nenhuma conexão especial, mas ritos importantes atraem almas semelhantes.

Depois de expor esta missão ao meu marido, ele explicou que foram celebradas missas no dia 11 de novembro de 2014, na intenção de reforçarem a importância da paz no mundo, já que há exatos 100 anos começara a primeira guerra mundial. A Bélgica, como outros países europeus, sofreu a perda de milhares de militares e civis durante as duas grandes guerras mundiais.

O maior pico belga, o Monte Brotange, tem 694 metros de altura e possui o maior pântano europeu. Fica numa região chamada Ardenes. A neblina é constante praticamente durante todo o ano. O frio penetra nos ossos.  A terra negra pode passar por um processo de secagem  e servir como combustão. As turfas, terreno de fósseis que datam de no mínimo 10.000 anos representam risco de queimadas no verão. Mas na maioria dos meses, cada metro quadrado da área contém 72 litros de água.

Entendi porque os espíritos haviam me enviado para o monte mais alto da Bélgica. Pelo menos, pensei que sim.

Nesta região muitos morreram na primeira e na segunda guerra mundial. Esta parte do país está muito próxima à Alemanha. Mas outros povos também passaram por ali trazendo devastação e morte. As guerras de conquistas de Carlos Magno às tribos locais também trouxeram muitas mortes e posteriormente as invasões espanholas, francesas e austríacas acumularam mais dor sobre este solo.

Para tornar o acesso ao Monte Brotange mais confortável aos visitantes, foram colocadas passarelas de madeira. Algumas estão quebradas e por isso, em alguns lugares somos obrigados a caminhar sobre água corrente, como se da terra brotasse água.

Éramos três. Todos muito focados nesta tarefa, pois sabíamos que iríamos tocar em algo muito dolorido para a Bélgica: as mortes.

Havíamos preparado saquinhos de rezos para os mortos e para a terra que chora seus mortos, com a finalidade de harmonizar essas energias. Na tradição Ojibway colocamos tabaco nos paninhos de 10cm por 10cm nas quatro cores e os amarramos num único fio. Colocamos nestes rezos, a nossa intenção para a harmonização dessas energias.

Até aí tudo corria bem. Até que uma das três pessoas envolvidas se sentiu muito mal. Primeiro sinal de que algo forte estava para acontecer. Tentamos restabelecer a harmonia.

Buscamos no monte Botrange um lugar mais reservado, entre as árvores. Cada um procurou o lugar que lhe agradava para jogar nas árvores os nossos rezos.

Quando ouvi a voz me orientando a fazer isso no monte mais alto da Bélgica, pensei que tinha a ver com o vento daquele local. Que o vento seria o elemento que carregaria nossas intenções. Tenho certeza que o vento é o mensageiro. Mas acabei descobrindo mais coisas.

Caminhamos um pouco mais e passamos por uma terra que parecia mais um colchão de água do que chão. Passamos por uma ponte e eu vi um riachinho correndo entre os pequenos arbustos sem folhas. Aquilo para me parecia o vale da morte.

A água corria fria, mas faceira. Foi quando entendi que deveríamos colocar tabaco na água e que nós adultos ali presentes não tínhamos como mudar o código de tristeza e morte impressos e carregados por anos na água, pois, nós adultos, somos marcados por tristezas e preocupações. Não conseguiríamos imprimir alegria e leveza na água no vale da morte, somente as crianças. Elas, sim, são o canal para imprimir a alegria naquele lugar. Nós adultos, ao realizarmos uma cerimônia, por mais dolorida que seja, temos que despertar em nós a nossa criança alegre e faceira. Cantar, dançar e celebrar, como crianças. Do contrário, a tristeza pode tomar conta dos participantes e sairemos da cerimônia muito pesados.

Saí dali como se uma parte de mim tivesse morrido também. Minhas pernas ficaram pesadas e geladas. O vale da morte entrou em mim e tocou minhas desesperanças e insignificâncias. O mundo pareceu uma comédia dramática, à medida que me aproximava de mais pessoas. Vi morte no rosto de todos e na minha própria imagem no espelho do banheiro de um restaurante típico da região.

Não aguentei mais e quebrei. Entrei no planalto das turfeiras e ali fossilizei.  Nos pântanos da  Bélgica…

No resgate de espectros, virei presa espiritual. A adulta em mim não teve a força da alegria e leveza da criança. Dias se passaram para que eu reencontrasse a alegria. Tive que fazer várias outras cerimônias para sair do pântano em que me metera. Entretanto, por mais incômodo que tenha sido, também entendi que essa profunda tristeza me obrigava a trabalhar o tema da morte em mim mesma.

Fiz seguidas jornadas xamânicas e tive algumas respostas.

Por exemplo, quando perguntei porque algumas almas ainda estavam aprisionadas na Terra após a morte física, a resposta que obtive foi: eles perderam o LOOP, a laçada. Me disseram também que morrer é um arte que muitos espíritos invejam. Morrer fisicamente é uma possibilidade de libertação. E que o nascer humano é a morte para o mundo espiritual. Me disseram que para os espíritos somos nós os humanos que estamos mortos. Tive sonhos com antepassados e encontros com a nítida sensação física de seus corpos.

Segui por uns dias carregando um peso extra. Chamei meu nome às quatro direções, na esperança de voltar por inteira. A cada trabalho, um pouco mais em mim mesma.

Tenho certeza que a Bélgica tem muitas almas a serem liberadas. Minha sensibilidade para perceber esta energia aumenta consideravelmente. O espírito das baleias me contataram que neste país, há um aprisionamento enorme de mortos e quando passo por alguns lugares posso ouvir e sentir a tristeza desses mortos.

Sigo aguardando mais orientações para continuar no entendimento desta empreitada. Tenho fé que por mais desinformada que ainda esteja, os espíritos me guiarão. Da minha parte, aprendi que precisamos salientar nosso lado leve e livre da nossa criança interior e liberar nossa própria alegria antes de querermos libertar energias tristes e aprisionadas. Isso também pode ajudar a aguardar os resultados da cerimônia realizada, que podem ser percebidos imediatamente ou levar vários anos para serem sentidos. Sei que na próxima cerimônia temos que imprimir alegria e leveza, como se imprimindo códigos que possam substituir os ali impressos pelo sofrimento de seres humanos.

Com esperança no coração

Athamis Bárbara – novembro de 2014

borboleta

Hoje uma borboleta me fez entender:

Viva este dia como se fosse o último de sua vida. Eu entendi que não preciso fazer algo muito bizarro, só preciso fviver o dia-a-dia com mais consciência. Já olhei minhas plantas e dei água para elas como se o amanhã não existisse. Já falei e ouvi estranhos como se eu nunca mais fosse lhes encontrar. A morte da baleia Jubarte, encontrada na Praia da Macumba no Rio de Janeiro deve ter deflagrado em mim o desejo de fazer da minha vida um sentido para minha alma.
Obrigada, Jubarte!

jubarte na praia da macumba

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