Textos ligados ao trabalho de Athamis

Primavera em vermelho

 

Adriane Helena Rodrigues

Athamis Bárbara[1]

Era uma vez um jardim. Ali morava um homem (ou uma mulher). Morávamos eu ou você. Qualquer um está ou esteve naquele jardim algum dia. Não importa. Importa o que mais lá existia.

Uma árvore.  Estava ali antes de todos chegarem. Sempre ali: soberana, perene. Estava acima do tempo e por esse motivo era considerada a árvore da vida. Sagrada e intocável.

Uma serpente. Rastejava sua diferença se igualando ao homem na solidão de um par. Compania eterna do habitante solitário do jardim. E qualquer um que morasse nesse lugar vivia muito bem e em paz até que um fato muito especial acontecesse. É onde começa nossa história.

Porque Deus nesse dia acorda com vontade de se divertir, e sopra movimento na árvore da vida. E a árvore se veste de flores.

Primavera.

Vento, chuva, sol, dia e noite banham as flores durante semanas em que homem e serpente tentam apreender toda aquela beleza. E antes que possam se fartar com o colorido e a delicadeza, elas murcham e caem.

Vazio.  Retorno ao equilíbrio original. Monotonia.

Mas o silêncio das aparências esconde a obra em construção. Homem e serpente, habituados com o mesmo de sempre, ignoram a correnteza que os move.

E numa alvorada acontece a maçã.

Aquela coisa diferente pendurada, diante dos habitantes do jardim. Muito linda de se admirar. Ficam  os dois namorando a maçã crescer, se desenvolver.

Oferece-se.

Sim. Porque a cobra tem a idéia de provar a novidade antes que ela se acabe. Mas não pode. A boca é pequena demais. Não tem dentes apropriados. Talvez por isso a curiosidade é maior. E depois da idéia da cobra, a paz no jardim acaba. Sedutora,  convence o homem a provar daquele vermelho. A tentação do saber. Descobrir o que é a maçã, que gosto ela tem, tomar posse, engolir. Torná-la parte de si. Insiste. Provoca. Tanto faz que consegue. O homem arrisca. Cria coragem e morde o fruto desconhecido. Quer saber o que está por trás da beleza.

Desejo.

Lá dentro o macio, suculento e doce. Claro e puro. Imaculado. Nutrição com prazer. Peito da mãe terra. Mastigado e sorvido. Absorvido com semente e tudo. Digerido. Sacia a fome de saber e outras fomes que nem sabia que tinha. O fruto passa a fazer parte daquele ser. Que agora é ser mais maçã mais saber mais semente.

E o homem pode ir embora do jardim, carregando dentro de si a árvore da vida. Porque conheceu o desejo, ousou provar do fruto e, dotado da semente do conhecimento e do poder do saber, se tornou capaz de ir embora. Se libertou do jardim. E foi viver num mundo muito maior.

Desde então o vermelho atrai e seduz. Chama a atenção para si e convence. E o desejo move o homem. Querer saber o que está por trás do vermelho faz dele alguém maior e melhor.

E Deus-cobra sorri. Feliz com a criação liberta.

E Deus-semente sorri. Feliz com a multiplicação da vida, solta no mundo.

E Deus-árvore sorri. Feliz com a perpetuação da primavera.

P.S. Em algumas versões dessa história batizaram esse jardim de Eden.  Nessa versão ele não tem nome, é só um jardim.


[1] Texto de Adriane Helena, inspirado em mensagem recebida por Athamis Bárbara em Jornada Xamânica.

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E-mail: barbaratha@hotmail.com

Tels.: (21) 2556-1380

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1 comentário

Um pensamento sobre “Textos ligados ao trabalho de Athamis

  1. Adriane,
    Muito inspirador a idéia contida no seu texto. E, como tudo que se expande retorna ao seu repouso natural, passada a tensão inicial. Do jardim ao mundo e… do mundo ao jardim!
    Paz, Luz e Serenidade!
    mccuel

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