Coroação das Sabías

O rito de passagem para mulheres sábias é celebrado uma vez por ano. Neste rito, mulheres com mais de 50 anos e que não mais menstruam são coroadas pela comunidade. Nele, mulheres mais jovens as ajudam a se sentirem acolhidas e amadas num dia de puro mimo.

As coroadas participam de uma reunião onde compartilham suas vidas enquanto as mais jovens constroem suas coroas e presentes e preparam a festa de coroação.

Kelly Van Raalte, anciã canadense aprendeu esse rito com as celtas no Canadá e o trouxe para o Rio de Janeiro em 2002 e desde então várias mulheres foram coroadas sábias anualmente. Coroadas diante da comunidade, lembramos a todos a importância de uma mulher madura na nossa sociedade. A elas, todo nosso respeito e amor.

O que me motivou a fazer esse ritual durante todos esses anos foi ter escutado uma vez uma anciã dizer: “Eu ouvi o relato de vida de várias mulheres. Somente durante essa reunião aprendi mais que em 30 anos de terapia”.

Líder da ceremoniaAthamis Barbara

Próximas datasAgosto 2018 :

Sábado 04  de 10 às 18h

Domingo 05 de 14:30 às 20:00h

Contato:

Cleia Fereira: 021 98536-5865 (oi) / 021 97347-5266 (claro) / 021 96735-2132 (vivo, whatsapp) / 021 98177-8899 (tim, whatsapp)

E-mail: athamis.vivencias@gmail.com

 

Manhã depois da Coroação das Sábias

Nos dias 4 e 5 de agosto de 2018, ainda no inverno carioca, celebramos essa magia que é assumir ser mulher sábia diante da comunidade.

Essa celebração foi trazida ao Brasil pela minha mentora canadense há muitas décadas atrás. Tudo que me lembro é que minha filha, quando guiou as sábias, com a sua flautinha, para o local de celebração, tinha ainda seis anos. Na reunião anterior à celebração, todas as mulheres falavam do que entendiam como ser MULHER e depois de escutar atentamente cada fala minha filha disse: “quando eu não sabia ainda que ser mulher era algo tão importante…”

Já se vão 17 anos. Eu nem sei mais falar sobre todas. Lembro apenas que fizemos esse rito em diversos lugares no Rio de Janeiro. Às vezes num sítio, às vezes numa casa na cidade com natureza exuberante, e ontem, pela primeira vez, o celebramos por completo no Centro Nowa Cumig. Isso me tocou muito. Eram cinco mulheres a serem coroadas, mais a comunidade Nowa Cumig, os familiares e amigos, a sala ficou cheia.

Certamente essa celebração e Rito de Passagem marcou diferentemente cada um e cada uma. Mas uma só coisa não pode ser contestada. A alegria de estar ali. O colorido das sete cores Ojibway, as flores, as velas representando as três fases da vida da mulher, a união de quem ajudou essa cerimônia acontecer, os cantos e danças após a celebração, a participação dos Fulni-ô com seus cantos. As fotos nem de longe retratam o contentamento interno, mas podemos ver nelas os sorrisos sinceros.

Eu mesma conduzi essa cerimônia durante muitos anos antes de me tornar sábia. Parece que as coisas acontecem fora de ordem comigo (ainda bem que a ordem dos fatores não altera o produto!). Mas chegou o meu dia. Eu estava preparada e apta a ser reconhecida sábia pela comunidade. Isso aconteceu ano passado, em 2017. E hoje faz 407 dias desde o dia que assumi ser Mulher Sábia.

Ontem, durante a cerimônia, me senti diferente. Percebi que algo sutil e profundo acontecera. Por ter passado pela cerimônia pelo lado de “lá”, entendi melhor o olhar das coroadas. Ouvi a pulsação do coração delas, mesmo que meu ouvido não estivesse no peito de cada uma. Eu Vi, eu Ouvi, pois aprendi com minha própria experiência. E é exatamente isso que define o que é ser sábia. Nós aprendemos com a nossa experiência de cada dia, com cada dor e alegria apresentada pela vida.

Durante a coroação as mulheres recebem uma coroa de flores. Essa coroa não é o que diz que a mulher é sábia. Ela apenas representa que a mulher já é sábia. Sábia na vida que viveu. Mas tem algo importante que deve ser lembrado. Se todas somos sábias pela experiência de vida, qual a diferença então?

É o RITO que marca essa nova fase diante da comunidade. E com ele, todas as coroadas que a partir dali se assumem sábias, pois o olhar da comunidade vai refletir isso na vida delas.

Sem o rito de passagem, as mudanças de fase de vida acontecem, mas com ele, tudo fica mais colorido, mais visível e participativo. Finalmente nos conscientizamos da passagem e nela reforçamos a força da deusa interna já existente. Nesse rito das sábias, especificamente, nos reconhecemos e nos aceitamos MULHERES SÁBIAS. Deixando, para trás os compromissos que antes nos preenchiam a vida, que agora será preenchida por cuidados a nós mesmas, à comunidade e à Terra Mãe.

Todas dizem durante uma parte da cerimônia essas palavras:

Sinto-me agradecida: a responsabilidade e os cuidados para nutrir uma família chegaram ao fim. Sinto-me agradecida: posso escolher meu próprio caminho espiritual. Entrando formalmente nessa nova fase da minha vida, dou prosseguimento ao que comecei. Abro-me mais e mais para meu ser criativo, buscando conhecimento, experiência, intuição e imaginação. Sigo minha intuição e acredito na minha deusa interior. Estudarei mais e aprenderei os caminhos da Mulher Curadora. Nutrirei e cuidarei de mim mesma. Honrarei e respeitarei a Terra e lutarei por sua saúde. Honrarei meu guerreiro, meu lado masculino, para trazer a mim mesma mais equilíbrio. Afirmo com convicção que comecei e continuarei a viver essa fase de minha vida com avidez e alegria.

Comprometermo-nos a dar crédito à nossa intuição, cuidar da terra e por ela lutar e aprender mais sobre os caminhos da curadora, modifica a ideia de que envelhecer é ser esquecida e colocada num canto da vida. Não! Envelhecer é dizer que estamos prontas a iniciar uma nova vida, cheia de aventuras e saberes a serem compartilhados.

Portanto, repito aqui o que dizemos durante a cerimônia:

NÓS SOMOS MULHERES ANCIÃS. NÓS SOMOS NOVAS MULHERES. NÓS SOMOS AS MESMAS MULHERES. NÓS SOMOS MULHERES SÁBIAS!

                                                                                                  Athamis Bárbara

                                                                                                  Rio de Janeiro, 6 de agosto de 2018