Arquivo | 6 de abril de 2021

O que faço com minhas DORES?

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Estou sofrendo, e isso dói. Experimento olhar para a dor, mas não consigo. Ela é grande demais. Escolho não olhar e sigo minha vida, mas essa decisão gera consequências. Por vezes me corto, preciso fugir da dor de alguma maneira: bebida, drogas, excesso de trabalho ou internet. Então alguém me diz: “se a dor apareceu, é porque ela quer ser curada. Ela quer te ensinar algo.” Tomo coragem e busco ajuda terapêutica. Ao olhar para minha dor, encontro um grande vazio. Dou um passo atrás e amplio minha visão. O que está por trás desse vazio? Tenho medo que meu pai morra? Saudades de um irmão gêmeo que não nasceu? Atitudes compulsivas e até impulsos assassinos?

Dou um passo atrás e amplio ainda mais meu olhar. O que está por trás de tudo isso? Essa dor não é só minha. Trago DORES de meus antepassados. Repito comportamentos destrutivos através de LEALDADES INCONSCIENTES dentro da família. Como evitar a repetição desses padrões negativos? Preciso olhar para as dores do ancestral a quem estou conectado, mas necessito reconhecer sua grandeza. Isso costuma ser difícil. O bisavô alcoólatra, o avô abusador, o pai desempregado, o irmão gêmeo que não nasceu, todos cumpriram sua missão. Se estou vivo, é graças a cada um deles.

O que faço com minhas DORES? Existem alternativas. Posso repetir o padrão e me tornar alcoólatra, assassino ou um desocupado. Tudo isso faço por um AMOR CEGO. Posso fazer diferente, a partir de um AMOR QUE VÊ, e assim homenagear os que vieram antes de mim.

Hellinger afirmava que os mortos permanecem presentes, mas de uma maneira diferente. Se isso é verdade, como meus antepassados se sentem diante da minha escolha? Eles se alegram quando, apesar de seus destinos difíceis, são reconhecidos como parte da família. Ficam felizes se o padrão negativo não se repete. Talvez com isso eles possam seguir sua viagem. Talvez aguardem ansiosos pela liberação.

Mas a mudança de padrão não é nada fácil. É mais confortável permanecer como vítima. Não preciso fazer nada e ainda consigo a solidariedade de muitos. No caminho mais difícil, preciso tomar ações. Me recuso a ser vítima e paro de acusar quem quer que seja. Decido que a mudança só depende de mim e me responsabilizo por meu próprio futuro. Sigo meu coração, mas a AUTO RESPONSABILIDADE custa caro. Nem sempre terei apoio da família. Muitos optaram por se manterem vítimas. Ser diferente gera culpa e consciência pesada. Ainda sim, banco a escolha do caminho difícil. As Constelações Familiares me oferecem sugestões. 

1) Olhar para minhas dores e identificar o ancestral a quem estou vinculado pela dor; 2) Agradecer a ele minha HERANÇA (vida, dons, dores e traumas) e prestar-lhe homenagem; 3) Dar a ele um lugar no meu coração e pedir sua benção para fazer diferente; 4) Me despedir e me afastar em direção ao futuro, sentindo pelas costas sua força; 5) Seguir meu caminho devagar, ampliando a cada passo minha visão. 

Talvez num certo momento eu perceba o PARA QUÊ daquela dor. Talvez eu conclua que o SENTIDO DA MINHA EXISTÊNCIA seja justamente desfazer dores e emaranhamentos que recebi como herança. TALVEZ…

Rinaldo Almeida